sexta-feira, 18 de março de 2016

Sobre fazer a coisa certa...

Essa semana, nas minhas preparações para retornar ao Brasil, fui a uma loja comprar um produto que queria desde que cheguei por aqui, mas não havia comprado por causa do preço elevado. Entrei na loja, peguei o produto e fui ao caixa fazer o pagamento. Quando o atendente me falou o valor total da minha compra, percebi que ele estava pedindo metade do que eu esperava. Instantaneamente perguntei se a peça estava com desconto. O atendente, assim como as outras funcionárias que estavam atrás do balcão, me olharam confusos... talvez se perguntando se o meu japonês não saiu como era para ser. Nesse momento, eu admito, pensei em deixar para lá, afinal, pagar menos seria melhor para mim. Mas decidi por fazer o certo, e expliquei que o preço anunciado era outro. Assim os três atendentes perceberam que a etiqueta que haviam scaneado era de outro produto e corrigiram o valor final. Saindo da loja, mais uma vez veio o pensamento de que talvez eu devesse não ter falado nada e economizado um pouco de dinheiro. Mas estou com a consciência limpa de que fiz a coisa certa.

Pensando a respeito, acho importante entendermos que certo e errado não são conceitos absolutos. O que é certo para mim, pode não ser certo para outra pessoa, em condições diferentes da minha. E o mesmo vale para muitos adjetivos: caro e barato, bom e ruim. Entretanto, eu considero honestidade como o certo a ser feito. É essencial para uma vida em sociedade viável. Aqui no Japão, é contra a lei não devolver o troco errado, assim como é contra a lei pegar para si o dinheiro achado no chão. O procedimento correto é levar o dinheiro para a delegacia de polícia mais próxima, onde os oficias vão anotar suas informações de contato e, caso o dono da quantia não aparecer em duas semanas, entregarão para quem encontrou. O que é mais impressionante não é a lei em si, mas o fato que a população segue a lei. E isso é algo que não posso negar a cultura japonesa, mesmo sabendo que tantas das nossas imagens do Japão são utópicas e surreais. É intrínseco no comportamento dos membros dessa sociedade, que ensina às crianças desde cedo a importância de seguir às regras e de colaborar para o todo ao invés de pensar só no individual. Às vezes até demais (mas isso é assunto para outra conversa). Estou falando sobre certo errado. E o fato é que o certo por aqui é a honestidade. E isto deveria ser o certo em todo e qualquer lugar, para toda e qualquer pessoa.

Eu me considero uma pessoa honesta. Pelo menos bem mais honesta que desonesta. E ainda assim, em frente a uma escolha entre o honesto e o desonesto, a escolha do desonesto me passou pela cabeça. E eu me pergunto por quê. Para mim, é claro que a escolha certa é a honestidade. Mas fui criada em uma cultura em que a malandragem e a esperteza muitas vezes superam a honestidade na cadeia de valores, principalmente se gerar alguma vantagem. E não estou falando da minha família, pois meus pais me ensinaram com muita firmeza a escolher a honestidade. Falo do comportamento geral da comunidade, do nosso jeitinho brasileiro.

Estamos em um momento político e econômico complicado, em que pedimos ações contra atos ilegais e reclamamos sobre a corrupção dentro do nosso governo. Não vou me aventurar a discutir política e economia, pois são dois assuntos sobre os quais meu conhecimento é limitado (mas tenho um projeto pessoal em andamento para alterar essa condição). Entretanto, para mim é claro, que boa parte da culpa dessa desonestidade que está instalada no nosso governo está na nossa cultura. E precisamos alterar esse panorama urgentemente, se queremos um futuro para nossa nação.

No Brasil, não devolver o troco equivocado é considerado errado? Não avisar que estão cobrando o valor incorreto é errado? Deveria ser. Mas todo mundo faz! Todo mundo faz errado então. Essa é a hora de usar a nossa individualidade e pensar por conta própria, tomar nossas próprias conclusões, e agir fora do comportamento coletivo. Isso significa lutar contra os nossos instintos, ter paciência e repensar todos os nossos hábitos e ações. Assim como atitudes negativas geram atitudes negativas, atitudes honestas geram atitudes honestas. Como falamos frequentemente no escotismo, "não existe ensino que se compare ao exemplo". Eu amo meu Brasil e quero colaborar para transformá-lo em um país melhor, pois, além de ser o meu lar, eu acredito no potencial para ser tudo o que ainda não somos. Então... aqui estou eu... lutando contra os meus instintos para ser uma pessoa melhor e para fazer melhor... e pensando em voz alta.

São José dos Ausentes, RS

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